Publicado no Blog RUA
Por Marcelo Batista Nery
30 de setembro de 2026
Recentemente, participei de um evento na UMAPAZ dedicado à discussão dos resultados apresentados no livro Resiliência Urbana em Ação, produzido no âmbito do RUA. Em determinado momento do diálogo, ao comentar como fenômenos urbanos que parecem distantes podem estar mais conectados do que imaginamos, mencionei uma palestra que costumo ministrar em que proponho examinar como processos aparentemente distantes, como a retificação do rio Tietê e a trajetória da violência no Jardim Ângela, podem ser compreendidos no contexto mais amplo das transformações socioespaciais da metrópole. À primeira vista, são processos separados por décadas, territórios e temas distintos. Mas, quando observados como partes de uma mesma trajetória de São Paulo, ajudam a revelar como decisões sobre infraestrutura, uso do solo e expansão urbana podem produzir efeitos que reaparecem muito tempo depois, em outros lugares da capital paulista.
A relação, evidentemente, não é direta. A retificação do Tietê não explica por si só a violência que, décadas mais tarde, marcaria o Jardim Ângela. O vínculo está em uma história mais ampla da urbanização, na qual obras de engenharia, valorização fundiária, industrialização, expansão periférica e acesso desigual a serviços públicos foram se combinando ao longo do tempo. Observar esses elementos em conjunto permite perceber que a forma assumida pela metrópole não resultou apenas do crescimento demográfico ou de condicionantes ambientais, mas também de prioridades econômicas, políticas e sociais que definiram onde investir, o que proteger, quais áreas valorizar e como os benefícios e custos desse desenvolvimento seriam distribuídos pelo território.
A retificação do Tietê é um bom ponto de partida para compreender esse modo de produzir a cidade. Apresentada como resposta às inundações, ao saneamento e à necessidade de ordenar a expansão urbana, ela também abriu caminho para a incorporação de extensas áreas de várzea ao tecido metropolitano. Ao longo do século XX, o rio deixou de ser tratado apenas como curso d’água e passou a integrar uma estratégia mais ampla de circulação, ocupação territorial e valorização imobiliária. Endireitar seu leito, acelerar o escoamento e liberar terrenos para novos usos significava, portanto, muito mais do que executar uma obra hidráulica: significava redefinir a relação entre a cidade, o meio ambiente e a população.
O projeto de Saturnino de Brito ajuda a perceber que o rumo tomado por São Paulo não era inevitável. Ao pensar a intervenção no Tietê, ele não propôs simplesmente transformar o rio em um canal mais eficiente: sua concepção combinava retificação, controle das cheias, saneamento, reservatórios e áreas livres, preservando maior espaço para a água na organização urbana. O que veio depois manteve parte dessa agenda, mas alterou suas prioridades. A valorização e a incorporação das várzeas ao processo de urbanização passaram também a integrar as disputas em torno do desenho do rio e de seu entorno. Não foi esse o único fator a afastar a solução originalmente concebida por Saturnino, mas ele ajuda a mostrar que, desde cedo, intervir nos rios de São Paulo significava também decidir sobre o valor e o destino da terra. Mais do que uma divergência entre projetos de engenharia, estavam em disputa diferentes formas de imaginar — e de apropriar — a cidade.1

Rio Tietê e clubes de regatas, no início do século XX. A paisagem registra uma relação entre o rio, suas margens e a vida urbana muito distinta daquela que se consolidaria após a retificação.
Foto: Guilherme Gaensly. Acervo Museu Paulista (USP). Domínio público.
Essa redefinição não se limitou ao Tietê. Ao longo do século XX, São Paulo interveio de forma cada vez mais intensa em seu sistema hídrico, articulando rios, represas, canais e estações de bombeamento às demandas de uma metrópole em rápida industrialização. O Pinheiros foi retificado e teve seu curso artificialmente controlado; Guarapiranga e Billings assumiram funções relacionadas à geração de energia, ao abastecimento e à regulação do fluxo das águas. Essas obras ampliaram, por algum tempo, a capacidade de responder a necessidades consideradas estratégicas, mas seus limites não tardaram a aparecer. O avanço da urbanização sobre várzeas e mananciais, a persistência das enchentes e o crescimento do esgoto lançado, entre outros, revelaram que transformar a hidrografia não significava necessariamente resolver os problemas produzidos pelo crescimento urbano. Em alguns casos, significava também deslocá-los, acumulá-los ou fazê-los reaparecer em outra parte do território.2
Enquanto grandes obras redesenhavam rios e áreas consolidadas da metrópole, uma parcela crescente da população passava a se estabelecer nas franjas urbanas, onde a terra era mais barata e a presença de infraestrutura, serviços e equipamentos públicos era mais limitada. O crescimento industrial e o processo de metropolização atraíam trabalhadores, ampliavam a demanda por moradia e pressionavam o preço do solo nas áreas mais valorizadas. Sem uma política habitacional capaz de acompanhar esse processo, o acesso à cidade formal tornava-se mais difícil para muitos grupos. Esse movimento, porém, não produziu uma periferia homogênea. Formaram-se diferentes contextos periféricos, cada qual marcado por combinações próprias de condições urbanas, inserção econômica, presença estatal, organização comunitária e exposição a riscos. Em alguns deles, uma dessas especificidades foi justamente a maior incidência de violência letal. O Jardim Ângela se tornaria um dos casos mais expressivos dessa diferenciação interna da periferia paulistana.
Essa trajetória não estabelece uma relação causal linear entre expansão periférica e violência, mas permite examinar a sobreposição histórica de processos de urbanização desigual e diferentes formas de vulnerabilidade territorial.
No Jardim Ângela, essa mudança foi especialmente acelerada. O distrito da Zona Sul passou de cerca de 4,3 mil habitantes em 1950 para 48 mil em 1970, 107,6 mil em 1980, 178,4 mil em 1991 e 245,8 mil em 2000. Em meio século, sua população foi multiplicada por mais de cinquenta vezes, num ritmo muito superior ao observado no conjunto do município. Mais do que uma simples expansão demográfica, esses números registram a conversão rápida de uma área ainda pouco urbanizada em um território densamente ocupado, pressionando a capacidade local de responder a novas demandas por moradia, transporte, saneamento, escolas, saúde, segurança pública e demais serviços urbanos. A velocidade dessa mudança ajuda a compreender por que a qualidade e o ritmo da urbanização seriam tão decisivos para a trajetória posterior do distrito.3
O crescimento do Jardim Ângela ocorreu, além disso, em uma área marcada por outra tensão decisiva: a proteção dos mananciais. Inserido na bacia da Guarapiranga — criada no início do século XX pelo represamento de um afluente do Pinheiros para regularizar a vazão do Tietê —, o distrito passou a concentrar simultaneamente duas exigências difíceis de conciliar: preservar uma fonte estratégica de abastecimento e acolher uma população em rápida expansão. Na prática, isso significou conviver com restrições ao uso do solo, ocupações irregulares, déficits de infraestrutura e intervenções públicas muitas vezes tardias ou insuficientes. A questão não era apenas onde as pessoas moravam, mas em que condições esse espaço era incorporado à metrópole. Quando urbanização, proteção ambiental, habitação e oferta de serviços avançam de forma descompassada, o resultado não é apenas precariedade física: aprofundam-se diferenças de acesso a oportunidades, mobilidade, direitos e proteção institucional.
É nesse contexto que a violência letal ganha centralidade. No Jardim Ângela, os homicídios permaneceram em níveis extremamente elevados até meados da primeira década deste século. Para o conjunto da população, a taxa foi de cerca de 91 homicídios por 100 mil habitantes em 2000 e alcançou 110,6 no ano seguinte. A intensidade do fenômeno aparece de forma ainda mais dramática entre os homens jovens: na faixa dos 15 aos 19 anos, a taxa chegou a 364,3 por 100 mil em 1996 e a 369,8 em 2000, permanecendo acima de 300 em boa parte desse período. Só a partir de 2003 a trajetória de queda se torna mais nítida, embora partindo de patamares excepcionalmente altos. Esses números não autorizam uma relação mecânica entre crescimento populacional, pobreza e violência, mas revelam a sobreposição de vulnerabilidades em um espaço que havia se modificado rapidamente e de forma desigual. A violência, nesse sentido, não deve ser entendida como atributo da periferia, mas como uma expressão possível de contextos em que oportunidades, proteção institucional e capacidade pública de resposta se distribuem de maneira profundamente assimétrica.4

“O padre Jaime conta que, em 1996, quando a ONU concedeu ao Jardim Ângela o título de lugar mais violento do mundo, algumas organizações que atuavam ali começaram a discutir como superar o problema. A percepção era de que todo mundo estava levantando grades e portões, ‘mas quanto mais nos trancássemos, mais daríamos espaço para a violência’, lembra o padre. Surgiu a ideia de uma caminhada no dia de finados, que partiria de alguns pontos do Capão Redondo e do Jardim Ângela até o cemitério São Luís, o único da região. ‘Tivemos cerca de cinco mil pessoas na caminhada, mesmo com gente dizendo para não ir, que era perigoso’.
Fonte: Instituto Sou da Paz, Valeu a pena. Sou da Paz: os primeiros 10 anos (2009), cap. 7, “Jardim Ângela”.5
A partir dos anos 2000, porém, essa trajetória começou a mudar de forma expressiva. No Jardim Ângela, a taxa de homicídios caiu de 110,6 por 100 mil habitantes em 2001 para 56,6 em 2004 e 31,9 em 2006. Entre homens de 15 a 19 anos, a redução também foi acentuada: de 361,4 por 100 mil em 2002 para 90,9 em 2007. Essa inflexão é importante porque demonstra que o território não estava condenado à violência. Mudanças nas políticas públicas, transformações institucionais, mobilização comunitária e alterações na própria dinâmica criminal contribuíram, em graus distintos, para modificar aquele cenário. Mais do que registrar uma melhora estatística, essa mudança mostra que trajetórias territoriais podem ser alteradas quando mudam as condições que as sustentam.6
A redução da violência letal, contudo, não significou o desaparecimento dos conflitos urbanos ou de uma das suas manifestações sociais mais típicas: a criminalidade. Nas décadas seguintes, as áreas de mananciais da Zona Sul passaram a revelar outra dimensão do problema: a expansão de loteamentos clandestinos, desmatamentos e mercados ilegais de terra. No próprio Jardim Ângela, na Vila Gilda, uma área de cerca de 130 mil metros quadrados, situada a pouco mais de cem metros de um braço da Guarapiranga, foi parcelada para dar lugar a centenas de moradias sem a regularidade fundiária e urbanística exigida. Em escala mais ampla, investigações policiais, ações de fiscalização e levantamentos do poder público passaram a apontar a participação do crime organizado (sobretudo do PCC) em loteamentos clandestinos, desmatamentos e na comercialização irregular de terrenos próximos às represas Guarapiranga e Billings. A terra e a água retornam ao centro da narrativa: aquilo que no início do século XX já estava em disputa nas várzeas do Tietê encontra, sob condições históricas distintas e envolvendo outros atores, um paralelo contemporâneo nas áreas de mananciais.7

“Condomínio” irregular é erguido próximo à Represa Guarapiranga: negócio de 6 milhões de reais.
Foto: Marcelo Sonohara. Veja SP.
Foi essa conexão que procurei explorar no diálogo realizado na UMAPAZ. A retificação do Tietê e a violência no Jardim Ângela não pertencem à mesma história porque uma tenha provocado diretamente a outra, mas porque ambas revelam como São Paulo foi sendo construída por escolhas sucessivas sobre água, terra, infraestrutura, moradia, circulação, proteção ambiental e segurança. Em alguns momentos, essas escolhas ampliaram capacidades e abriram oportunidades; em outros, deslocaram custos, aprofundaram desigualdades ou produziram consequências que só se tornariam visíveis décadas depois. Talvez seja justamente essa a principal lição dessa trajetória: na cidade, decisões tomadas em um lugar raramente permanecem confinadas a ele. Seus efeitos percorrem o território, atravessam gerações e, muitas vezes, reaparecem onde menos se espera.
Referências e fontes
1. NUNES, Mônica Balestrin. “Cartografia e paisagem: o mapa como objeto de estudo”. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 65, p. 96–119, dez. 2016. DOI: 10.11606/issn.2316-901X.v0i65p96-119. Ver também: FIX, Mariana; ARANTES, Pedro Fiori. “São Paulo, cem anos de máquina de crescimento urbano”. Estudos Avançados, v. 36, n. 105, p. 185–210, 2022. DOI: 10.1590/s0103-4014.2022.36105.012.
2. EMAE – Empresa Metropolitana de Águas e Energia. “Barragens” e documentação histórica do sistema hidráulico Tietê–Pinheiros–Billings–Guarapiranga. A página institucional descreve, entre outras estruturas, a Barragem do Rio Grande/Usina Elevatória Pedreira, a Usina Elevatória São Paulo (antiga Traição), a Barragem do Guarapiranga e a Estrutura de Retiro.
3. PREFEITURA DE SÃO PAULO, SMUL/GEOINFO. “População: Município de São Paulo, subprefeituras e distritos municipais – 1950, 1960, 1970, 1980, 1991, 2000, 2010 e 2022”. Fonte: Censos Demográficos do IBGE; para 1950–1980, retroestimativas e recomposição dos distritos pela SMUL/DIPRO.
4. LICO, Fátima Madalena de Campos; WESTPHAL, Márcia Faria. “Juventude, violência e ação coletiva”. Saúde e Sociedade, v. 23, n. 3, p. 764–777, 2014. DOI: 10.1590/S0104-12902014000300003. Ver também: RUOTTI, Caren; REGINA, Fernanda Lopes; ALMEIDA, Juliana Feliciano de; NASSER, Marina Mattar Soukef; PERES, Maria Fernanda Tourinho. “A ocorrência de homicídios no município de São Paulo: mutações e tensões a partir das narrativas de moradores e profissionais”. Saúde e Sociedade, v. 26, n. 4, p. 999–1014, 2017. DOI: 10.1590/S0104-12902017170254.
5. INSTITUTO SOU DA PAZ. Valeu a pena. Sou da Paz: os primeiros 10 anos. Coordenação de Ligia Rechenberg. São Paulo: Instituto Sou da Paz, 2009. ISBN 978-85-62387-00-5.
6. NERY, Marcelo Batista. Crime e violência no cenário paulistano: o movimento e as condicionantes dos homicídios dolosos sob um recorte espaço-temporal. 2016. Tese (Doutorado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016. DOI: 10.11606/T.8.2016.tde-25102016-134640.
7. VEJA SÃO PAULO. “Desmatamento ilegal abre espaço para condomínios clandestinos nas represas”. 23 out. 2020. Ver também: FOLHA DE S. PAULO. “Crime organizado financia desmatamento da mata atlântica na zona sul de SP”. 27 maio 2023.



